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mariana

20 de Outubro, 2023

A Viagem do Elefante - José Saramago

mariana

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Acabei de ler este livro há alguns dias e precisei deste tempo para pensar no que ia dizer sobre ele, mais precisamente a preparar-me para falar mal de Saramago em público.

CALMA! A verdade é que como maior parte dos leitores, eu também sou uma grande fã do trabalho do Nobel, como não? Tão fã que estabeleci um limite de leitura de um romance anual, para não esgotar os recursos e saber que ainda me restam alguns anos de novas leituras.

Este ano decidi que ia ler “A Viagem do Elefante”. Para quem não sabe, o escritor andava por terras de Áustria, quando entrou num café e lhe contaram a história real que aconteceu no século XVI, quando o rei D. João III ofereceu ao seu primo, Maximiliano II, um elefante indiano que tinha em Lisboa. O elefante teve então de viajar milhares de km de Lisboa a Viena. Posto isto, o escritor decidiu escrever um conto (com mais de 200 pp), onde relata esta jornada.

Numa entrevista que o autor deu na altura de lançamento, ele diz-nos que o livro funciona como uma metáfora para a vida humana. “Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam” – na medida em que chegamos ao nosso destino depois de uma viagem e ao outro destino, o inevitável, aquele mesmo em que estão a pensar.

Isto porque *SPOILER SPOILER*, passado pouco tempo da chegada do elefante a Viena, o animal morre e cortam-lhe as patas para fazer aqueles objetos onde se metem guarda-chuvas e bengalas, que estão à entrada dos sítios (chapeleiro?).

Como já li alguns livros do autor, estou habituada a sequências de viagens, como acontece por exemplo em Caim, Levantado do Chão, Memorial do Convento, onde existem muitas descrições e também se levantam situações de crítica à sociedade. Neste caso, temos crítica ao poder hierárquico, ignorância do povo e à Igreja, entre outras… A questão é, este livro é *preparem-se* chato. Tem palavras a mais, tanto que demorei mais de 10 dias para ler 200 páginas. Não existe qualquer tipo de conflito, suspense, ou aprofundamento de personagens, são apenas longos parágrafos descritivos e acaba por não acrescentar nada de novo que os outros acima não tenham já dito, e melhor.

Eu sei, eu também fiquei triste. Mas olhem, melhores virão e há passagens muito bonitas na mesma. Aqui vão:

“(…) a quem talvez não vejamos mais, ou talvez sim, porque a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginámos silêncios, e súbitos regressos quando pensámos não voltaríamos a encontrar-nos”

“Não é verdade que o céu seja indiferente às nossas preocupações e anseios. O céu está constantemente a enviar-nos sinais, avisos, e se não dizemos bons conselhos é porque a experiência de um lado e do outro, isto é, a dele e a nossa, já demonstrou que não vale a pena esforçar a memória, que todos a temos mais ou menos fraca. Sinais e avisos são fáceis de interpretar se estivermos de olho atento”

“No fundo, há que reconhecer que a história não é apenas seletiva, é também discriminatória, só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta da realidade. Em verdade vos direi, em verdade vos digo que vale mais ser romancista, ficcionista, mentiroso” 

"Não se pode descrever. Realmente, o maior desrespeito à realidade, seja ela, a realidade, o que for que se poderá cometer quando nos dedicamos ao inútil trabalho de descrever uma paisagem, é ter de fazê-lo com palavras que não são nossas, que nunca foram nossas, repare-se, palavras que já correram milhões de páginas  e de bocas antes que chegasse a nossa vez de as utilizar,  palavras cansadas, exaustas de tanto passaram de mão em mão e deixarem em cada uma parte da sua substância vital"

Ah, e para além de tudo isto, o livro ainda inspirou uma jarra da Vista Alegre que custa 380€. Vou só deixar aqui esta informação, façam dela o que quiserem.

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