Aqui dentro faz muito barulho - Bruno Nogueira

Como muita gente, sempre segui de perto o trabalho do Bruno Nogueira. Já revi o “fugiram de casa de seus pais” umas 500 vezes. Já vi as séries, os espetáculos de stand-up, ouço semanalmente o podcast. Apesar disso, não era leitora das crónicas que saem na revista Sábado (às quintas).
Dentro da cabeça do Bruno faz muito barulho e ele decidiu exteriorizar esse ruído por intermédio da escrita. É-nos transmitida a importância da dúvida, do silêncio, do pensamento constante, por contradição com a certeza absoluta e a pressa de falar de quem tem o coração ao pé da boca – para que o resultado seja um diálogo contínuo e uma evolução connosco e com os outros.
As crónicas dividem-se em críticas humorísticas sobre a situação política do país, o primeiro-ministro, o Presidente, o Ventura, reflexões sobre eventos e questões da atualidade, e depois existe a outra parte. A parte sensível, as crónicas que expõem todos os medos que o acompanham, a solidão, a velhice, a amizade, os desamores, a comunicação, as memórias queridas da infância. Estes sentimentos de medo ecoam com o público e começam assim a dispersar, quando os vemos escritos e partilhados por tanta gente. Não estamos sozinhos, e isso é reconfortante.
Este livro foi uma prenda de natal e assim que pude, deitei-lhe as mãos. Transitou de 2023 para 2024, fui lendo pouco a pouco para o saborear bem. Calhou ter-me feito companhia em dias muito difíceis, o que fez com que tenha criado uma relação emocional com ele. A partir daí, vejo-o como um livro especial, para ir relendo e continuar a questionar o que até aí me pareceu certo.
“Somos o que dizemos, ainda que possamos dizer o contrário do que pensamos. Ou somos o que pensamos e dizemos aquilo que queremos ser. Qual das duas versões somos nós, a que pensamos ou a que falamos? Em qualquer uma delas, é possível que não sejamos quem pensamos que somos. Felizmente temos as palavras, que nos vão ganhando tempo até descobrirmos.”
As crónicas favoritas:
“Até que a morte nos separe”
“Ajuste de contas com a amizade”
“Saudades do presente”
“A árvore que era da casa da minha avó”
“O amor das coisas belas”