Você nunca mais vai ficar sozinha - Tati Bernardi
“’É uma menina, mãe’. E ela respondeu na lata, sem pensar, apenas esta frase ‘Você nunca mais vai ficar sozinha.’ Minha mãe acha que mulher que tem filha mulher nunca mais se sente só. Fiquei aliviada e horrorizada. E depois só horrorizada.”

Depois de ler o “Depois a louca sou eu” da mesma autora e de ter adorado, fiquei com curiosidade para ler mais. Sendo o outro livro de não ficção e abordando de passagem o tema da maternidade, fiquei com a sensação de que este livro era um conjunto de crónicas sobre isso. Não é. É um romance, em que a nossa personagem principal, de 35 anos, descobre que está grávida e através de conversas com a sua enfermeira, nos conta vários episódios acerca da sua vida e como se sente na fase da gravidez, comparativamente à altura da juventude.
Tati consegue descrever os sentimentos conflituantes acerca da maternidade de uma forma exímia. Não sou mãe, nem sei se alguma vez serei, mas consigo entender perfeitamente o seu ponto de vista. A maneira como fala sobre a mãe, sobre a relação amor-ódio, neurótica, exagerada, de completa dependência também me fez sentido e acaba por ser o ponto central da história.
“Eu nunca conquistei de verdade a minha mãe. Ela nunca me achou realmente bonita ou realmente inteligente. Ela só tem muito medo de eu ficar doente e a isso chamamos amor. Eu não sei mais o que eu poderia ser para conquistar a minha mãe. Mas se eu fico doente, ela me ama na hora.”
Ainda não foi desta que a escrita da Tati me desiludiu. Os livros dela têm um cunho pessoal que os distingue de quaisquer outros que leia. Estou desejosa de pegar no “Homem-Objeto e outras coisas sobre ser mulher” e recomendo muito que lhe dêem uma oportunidade.
“Minha avó, mãe da minha mãe, era portuguesa e me apelidou de Caganita (…) Quando ela ficava muito irritada com as pessoas, falava duas obscenidades absolutamente espetaculares: ‘Vai para a cona da tua mãe!’ e ‘Caralhos me fodam!’.”